As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

discurso não-verbal



por Ture Sjölander & Lars Weck, "Monument" (1967)

domingo, 20 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ronald Augusto, uma Peri-peça


Por outro lado, pode-se também ler esse poema pelo viés da malandragem. A pose apolínea é triturada por uma sub-ratio defectiva, desencadeadora de uma nova casta de sentidos. Longe do mero decalque, de uma simples incisão exótica nos tipos, na verdade uma provocação mais radical aqui se realiza. Virando as costas à reverência e ao porte das divindades incrustadas num olimpo semântico, com certo gracejo, o poema, através do enxerto radical de estilemas e códigos, opera sua insubmissão. Não sendo permitido falar desde um pódio de acepções consagradas e autorizadas (o grego), o vocabulário negro engole o grego e o expele, agora sim, num lance de apropriação traquina; afronta matreira de Ogum a Zeus. Para tanto há que se observar a já referida justaposição persistente (em vermelho e negro) dos tipos que funcionam na cena caligráfica como elementos que se miram desde uma proximidade apenas consentida. E é com esse procedimento de ginga que o poeta fabula em cima das falas para, convencionalmente, driblar mais um enguiço im/posto pela tradição.

Claro, tipos gregos parecem gozar do conforto etimológico de comporem palavras, idéias, projetos, ideologias que servem de pilares e conformação às verdades e à ordem pública ocidental. Algo que, se não garante sua imutabilidade, pelo menos assegura, há anos, uma espécie de “autoridade de fonte” quanto ao ponto de partida (e de chegada) das discussões e até mesmo de uma forma de pensar. Daí, a peça de Ronald Augusto comportar também uma estratégia de desconstrução elíptica e crítica dessa idéia tão corriqueira quanto folclórica de hibridismo, mesmo, e também por isso, sendo uma experiência que se dá nas fronteiras gráficas dos discursos: a scriptio defectiva iorubana invade a scriptio lapidar grega, a língua vulgar se imiscui nas saliências da matriz dominante, enquanto instância onde se decide e se decreta o saber, o sabor, a cultura. Não por acaso, em outra versão desse mesmo poema o autor denomina o poema visual de “negro engole grego”.
(esse post foi retirado do artigo em Germina Literatura: http://www.germinaliteratura.com.br/2009/literatura_dez2009_candidorolim.htm)

Cândido Rolim

domingo, 29 de novembro de 2009

o afeto que emperra


O afeto, que à primeira vista deveria possibilitar um comércio franco das idéias, ainda que discrepantes ou por acaso contrárias, contraditoriamente, serve de barreira a que se criem as mínimas condições para uma discussão válida.

Sem se perquirir um só instante sobre seus limites aparentes e, por que não, a relevância das conotações postas no terreno da análise, o que se encoraja a agitar nesse confinamento rarefeito, quase sempre, são destroços de uma aquiescência sutilmente imposta, tal a singeleza e grau de superficialidade com que as opiniões são permitidas.

E depois tudo acaba por servir de estofo a uma discordância tão impudica quanto volúvel que, ao fim e ao cabo, só contribui para conceder mais uma sobrevida ao artificial consenso.

Cândido Rolim

foto: LUAN & NATHAN, do autor

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

pequeno incômodo à claridade


A sintaxe parece não servir mais de auxílio a um arranjo fulgurante (e previsível) de efeitos estéticos (metáforas, arremates, achados, sinestesias, aliterações) nem à catalogação de um repertório de gestos que evidenciam “conquistas plásticas” arrebatadoras ou “maturidade expressiva” em demanda do belo, mas a dar testemunho de uma suspensão, de certa forma indócil, da tradição vista como instância de fomento às operações estéticas de um devir.

O poeta opta por dar lugar aos registros mínimos do percurso, mesmo consciente da impossibilidade de adequação do dito ao visto. Melhor dizendo, aquela, a tradição canônica, parece anunciar seus vestígios desde um plano menos evidente, como em trânsito vertiginoso para a diluição.

No seu recente “Paisagem com dentes” (Oficina Raquel, 2009), o poeta paulista Renato Mazzini parece desdenhar a ruptura ou, pelo menos à primeira vista, não parece tê-la como um fazer mais proveitoso que transpor aquelas objetividades “menores” (a mácula de uma roupa deixada/do avesso sobre o corpo estirado/no chão, sem estar rente: costas,/costelas, sal, maço de cigarros – p.42) além de ocupar-se em rivalizar com impasses estéticos mais minuciosos, geralmente escamoteados por poetas que optam tão somente pelo “poético”.

Noto, tal como em algumas escassas escrituras do presente que, aos poucos, a poesia se desprende dos ramos de uma matriz imagética ou de uma praxe metalingüística que, a essa altura, já não merece mais contrariedade nem estímulo.

Com efeito, aqui, a sintaxe destaca-se como ferramenta de uma operação que quase aniquila o ritmo do raciocínio e, paradoxalmente, arrisca-se a desfazer o próprio traçado da experiência estética, mas se permitindo um registro elíptico e raro da vivência (decido resumir um percurso íngreme/ entre você e as alternância de uma/ fileira de postes..., As Cortinas, p.22) .

Enfim, o patético da arte conformada a um fim ou o ideal de comprazimento por conta de uma experiência formal sem objetivo algum, tudo isso parece triturado aqui, sem alarde, nos dentes de uma proposta discursiva em esgalho, que parece zelar pelo momentâneo das coisas.

CândidoRolim

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

postos a secar

foto by Cândido Rolim

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

a gênese suspeita da concordância



Se, para formar a estrutura do conhecimento se exige uma sutil anuência (uma concepção de Russell) ou uma confiança quase incondicional no que se vai conhecer, onde e quando começaria uma discrepância crítica e até onde esta iria sem a incômoda tarefa de rever-se?

Sob esse aspecto, as mentes que aparentemente pouco ou nada assimilam são, à primeira vista, também agentes de alguma resistência apreciável, principalmente por parecer desnecessário divulgarem os motivos pelos quais se incapacitam (ou se negam?) a apreender, sem reservas, o conteúdo da mensagem. Considerando que a rigor ninguém está livre da compreensão, não reside aí uma hábil estratégia travestida de inépcia que desfalca e tumultua a economia cumulativa dos sentidos?

Mas vale lembrar: se essas inteligências se ressentem de alguma agudeza crítica ou se mal e mal esboçam os traços de uma tímida discórdia, há ainda a suspeita de estarem menos sujeitas à imobilização ditada pelo apreço incondicional à idéia.

Cândido Rolim

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

furos de uma linguagem oportunista

Por parecer tão indiferente às investidas político-acadêmicas sobre seu mérito “estético” talvez seja somente a partir da índole de seus conteúdos psicossomáticos que o discurso da auto-ajuda deva ser lido com mais atenção. E sob esse aspecto, é provável que essa linguagem nada mais pretenda senão implantar, antes de qualquer coisa, a necessidade de auto-ajuda.
Com efeito, ministrando posturas e uma casta de hábitos comumente prescritos e reeditados por quem já se beneficiou desse mesmo discurso, contrário do que aparenta, ela não se sobressai somente às custas da consciência inerte do destinatário: levemente decalcada do fetiche burguês da vida (e da morte) ideal e conjugada a um psicologismo “vulgar”, essa linguagem sobrevive (e eventualmente seduz) através de uma estratégia de esvaziamento. Está-se diante de uma necessidade planejada e, talvez por isso mesmo, as doses de seu otimismo agressivo são ministradas à revelia da carência real.
Atenta demais a sintomas fictos e, mesmo assim, incapacitada para dissolvê-los, a auto-ajuda tira também proveito da normalidade: seus afetados mantras não dizem mais “você pode”, mas “você precisa”. E atrelada a esse adágio propagandístico que torna o leitor apto a sentir-se merecedor de algo de cuja posse jamais cogitou (posto, aparência, atitude, um estado de ânimo cobiçável), apaga do horizonte tudo aquilo que, bem ou mal, provisoriamente prevenia o sujeito de algum malogro iminente: a consciência mínima das circunstâncias concretas em que se achava inscrito.



Cândido Rolim

manipulação a partir de uma sinopse de auto-ajuda




Num mundo competitivo e veloz como o nosso é preciso se destacar dentre a multidão para obter sucesso. Você precisa se preparar para ter a seu favor, diferenciais que alavanquem a sua vida, seus negócios e sua carreira. Assuma a responsabilidade pelo seu sucesso. Não deixe seu sonho na mão dos outros, assuma o comando da sua vida.


Cândido Rolim

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A crítica que não se critica



Muitas vezes a atuação da crítica consiste em impor sutilmente uma perspectiva, de preferência aquela a partir da qual se sinta mais confortável para apreciar ou destruir algo.
Por exemplo: é estranho que a crítica se desestimule a “interpretar” ou ver uma obra a despeito de sua estranheza, vista aqui como desconformidade a um modelo cuja identidade ela crítica não sabe ainda confrontar com segurança a não ser em relação aos “pontos elevados da cultura” ou aos frutos do esmero particular dos gênios.
Essa tarefa parcial - interpretar obras pelas lentes de um modelo clara ou veladamente imposto - se não subministrou até agora toda uma tradição analítica, da qual a crítica contemporânea é também tributária, ao que parece estabeleceu hábitos que alimentam um antagonismo supersticioso ou, pior, ditou uma postura alérgica ou demasiado comedida com relação ao que se faz desde o presente.

Cândido Rolim

Ilustração: O Crânio (Sílvia Rejane de Assis)

sábado, 15 de agosto de 2009

marcelo sahea, uma peri-peça


Um gato (p. 51 do livro Leve). o estático contorno felino aconchega precariamente a fuga da pilosidade-discurso (novelo de lânguidos, lê-se). pedra de toque da contemporaneidade, o fluxo vertiginoso das imagens (neste caso, da grafia) não permite que se detenha com sossego na referência, aqui implodida e reconstruída ad infinitum. o caligrama em passagem, ao mesmo tempo que preenche a modo de entranha a fôrma do animal, contraria a minúcia esperada da referência continente: gato.

não sei se em função da articulação mecânica do poema (atribuível mais à performance impessoal do computador e aos limites de suas ferramentas) ou da intenção do autor em fazer do poema uma mancha gráfica em flash, fato é que neste Poegif (nome dado pelo autor a seus objetos gráfico-eletrônicos) a motricidade lânguida do objeto não aflora com tanta contundência (credite-se ao vício e nossa percepção analógica?). o viés lúdico da proposta permite-nos imaginar: e se o texto, a mancha gráfica do giz tigrino, se movesse dentro de uma moldura também móvel - movediço pacto felinopéico?

mas aqui, a experiência de M.S. não coincide com a arte performática que espicaça os limites semióticos com o puro intuito de provocar um "estímulo"; o esforço para mover a versão opaca do objeto, amparada por alguns recursos da nova mídia, já é, senão o discurso, uma idéia animada desencadeadora de outras experiências lógicas e visuais. enfim, lance de manejar a economia dos pixels sem a pretensão de invalidar (ou convalidar) os acúmulos. verter o poema, antes plasmado no suporte livro, em animação proliferante .

Cândido Rolim

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

palimpsestos urbanos



O palindromo "orumuro" serve de ponto de partida para uma série eventos estéticos e intersemióticos. Num primeiro momento, temos o registro fotográfico de uma pichação num muro da metrópole, verdadeiro palimpsesto urbano que de imediato gera uma tradução em outro código: trata-se do poema de Cândido Rolim. Ainda dentro das balizas do código verbal, o poema de Rolim serviu de ponto de partida para o meu texto em diálogo, que, de resto, pode ser lido como uma tradução intracódigo. Assim, começam a ser depositadas camadas e camadas de signos sobre um evento ou sobre um instante do presente precário, produtor de fricções inesperadas e de ficções, onde o real surge como o seu corolário equívoco. Tempos depois, esses primeiros excursos de experimentos discursivos se fundem, aí sim, numa forma de linguagem que em sua essência é de caráter intersemiótico: o registro audiovisual. O videopoema, o clipoema, ou que outra denominação se use, anima os signos do verbal, feito de tipos (i)móveis, documentando a caligrafia defectiva por meio do acaso tanto da oralidade como da veracidade do homem-fala condenado ao seu afazer e à sua afasia.
ronald augusto

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

para tudo na vida, uma boa imagem


no painel da traseira do ônibus, na mídia digital do consultório, no meio da revista, está ali o casal de sorridentes velhinhos num bote em forma de cisne para propaganda de pecúlio e empréstimos para aposentados. o jovem casal ilustra colchões de mola e casas geminadas. criança com um balão verde serve ao plano de saúde.

de onde saem essas imagens dotadas de uma mórbida conformação à platitude e chantagem do apelo? provavelmente de um banco de dados cuja atualização periódica se dá nem tanto em função da mobilidade de seus modelos indiferentes, mas das contorções decorrentes de uma necessidade premeditada, alheia ao quadro.

Cândido Rolim

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Indecoroso culto à perícia


Quando nos aproximamos a uma poética contemporânea, a técnica logo se destaca como chave única da fruição. Melhor dizendo: o produto estético parece incapaz de nos conceder uma intriga desvinculada da informação técnica que lhe serviu de insumo.

Não admitimos que nada foi posto ali sem antes passar por um criterioso recuo, um desconforto calculado que resulta – mesmo que esta talvez não seja a proposta aparente – no emprego tão consciente quanto infalível de uma techné.

E se não for assim tão sedutora a lógica do desafio, a consequência dessa praxe, principalmente quando o meio deixa de ser a mensagem, não seria quedar a obra a meio caminho de algo não necessariamente prometido, mas objetivamente verificável? Quer dizer, entre fruir abertamente o desvio indicado pela técnica e a rarefação dos sentidos que sustentam o discurso, o leitor não optará pela desistência?

Cândido Rolim

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Orumuro na fita


Cineclube de Ciências Sociais exibe videopoesia produzida no LAMIA.
O Cineclube de Ciências Sociais da UECE, vinculado ao LAMIA, exibe nessa quinta-feira Às 19h, uma vídeopoesia de Cândido Rolim, Diego Medeiros e Bruno Sampaio, cuja edição foi feita no LAMIA/GPDU.


Orum/muro, um vídeo que dialoga com arte em várias linguagens e trás debate possível em diferentes campos, inclusive o da ciência: Catadores, pichadores, grafiteiros, poetas, moradores da Aldeota; todos são parte de uma dinâmica social da cidade, que trás consigo amplo espaço para discussão e diálogo.

Quem são esses atores sociais? Como interferem no cotidiano da cidade e permeiam esse cotidiano com falas, pichações, trabalho, poesias, signos? Muitas outras questões podem ser abertas a partir de uma aparentemente simples pichação em um muro da cidade.

ORUM / MURO

Quem passa em passagem por um ônibus e visualiza o que, acidentalmente, urra nas fissuras da cidade? O que significa ler, em trânsito essa esbanjadora (e raramente comedida) “literamuro” e suas manchas periféricas postadas pelos bandos urbanos?

A partir de uma simples pixatura, obra dessa uma revoada graf(v)itante, fez-se uma leitura e depois outra, e mais outras. A próxima? Qualquer uma. Por exemplo, aquela feita por Adriano, o catador dos cacos da “sensatez condominial da aldeota”, alheio aos esgalhos sígnicos extraídos do muro que, alheio ao discurso “poético” atravessa os poemas com sua fala-caco.

Compõem essa experiência-vídeo, além das ranhuras sígnicas do muro, o marulho dos ônibus em rota, todas as fuligens no ar, na respiração por onde os poemas aqui e ali exsurgem aos tropeços, solavancos da fala alada, despregada das páginas, dos tipos imóveis. Enfim, se no audiovisual existe um docudrama, podemos dizer que existe aqui um docupoema. Orum muro, uma forma palindrômica de sobressaltar-se, afetar-se.

Nota:
Orum, na linguagem ioruba, significa mais ou menos o fim, lugar sem volta, poço sem fundo... enfim.

Veja reportagem no jornal O Povo de 25 de junho de 2009, sobre o vídeo:

http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/887929.html

"e não é que bem ali

neste lado solar do mundo a esperta

mão desconhecida anônima anomalia

bem nos beiços da sensatez

condominial da aldeota

cravou no muro sagaz

ogum-seta"

Cândido Rolim

terça-feira, 19 de maio de 2009

desde uma questão posta por Renato Mazzini

R.M. - Concordo com o que é dito sobre o subjetivismo poético, e acho que o adjetivo ‘supersticioso’ empregado ali foi pontualíssimo. A respeito da epiderme e do estofo do poema, me pergunto: o gesto deflagrador do texto poético, o que primeiro impulsiona o criar do poema, é um gesto puramente 'natural' ou é produto de forjas? Pergunto, porque o movimento de re-solução do poema, reestruturador, aparenta ser mais intrinsecamente relacionado ao formão, visando resolver melhor uma estrutura já projetada ou chegar à sua inevitabilidade máxima. Mas e o movimento originário? Mesmo sendo impelido por estímulos externos, ainda assim, é natural ou espontâneo?

C.R. – 1. considerando o texto, sua configuração em estado de leitura, muito difícil precisar onde prepondera o escrutínio, onde o azar ou a coincidência se instalam. Como se sabe, a convenção permeia mesmo nossas posturas mais naturais. O próprio pensamento, antes de concatenar-se tenta desvencilhar-se de uma impertinente rede de convenções insinuantes. Por isso mesmo, um construto verbal tipo poema não pode ser visto somente como uma graça do sujeito.

2. à medida do possível, desvincular o texto de seus insumos místicos, inatingíveis pela atenção do leitor ou imunes a uma pragmática profana do intelecto: esses elementos que, por seu arbitrário grau de “inefabilidade” adquirem status de predominância ou, pior, de elementos tanto definidores como “característicos” da linguagem poética. Também não significa dizer que, depois de lido, descontada a perícia e repertório do leitor/autor, o poema se exonere de suas estranhezas.

3. não por acaso esses elementos “esotéricos” que por um lado condicionam e até atraem a fruição do texto e por outro interditam uma fruição, digamos, anti-poética desse dogma, estão quase sempre enquistados naquele “subjetivismo supersticioso”. Daí toda aproximação crítica ao texto poético ser tida como uma tentativa subversiva de explodir essa bolha de tra(u)mas insondáveis, levando suas fontes viris ao esgotamento.

4. no poema tudo ou quase tudo se resolve na superfície atritada da linguagem. Aí, nesse solo suspeito e suspenso talvez não exista distância nem distinção clara entre naturalidade e artifício. Se não irrelevante, no poema, o grau de manipulação do intelecto seria provisoriamente adiado, até certo ponto desconsiderado. Quer dizer: as pulsões imaginativas ou sentimentais que irão desencadear o texto (nem mais nem menos que a vigília estruturante e seletiva do autor) ao fim e ao cabo restarão dissolvidas por uma ordem de imagens e idéias plasmadas em um “discurso” dito ou subentendido. Tudo configurada na e pela linguagem, sujeito a impasses e diluições.

5. é também esse subjetivismo, rico em perplexidades postiças, que postula ser da prosa a prerrogativa da objetividade concreta e chã, sobrando à poesia a tarefa “nobre” de lidar com o imponderável, algo assim como ser representante eterna de uma decência.

Cândido Rolim

segunda-feira, 11 de maio de 2009

estofo do poema


Talvez pelo fato de as atribuições serem bem mais mutáveis que o objeto atribuível (Santo Agostinho), é tão comum conceder-se um caráter puramente subjetivo à expressão poética.
Mas, bem observado, o que toca e sobressai no e do “fenômeno” poético são os incidentes plástico-semânticos de sua objetividade. Aquilo que, abstraído de algum insumo vivencial em específico, assume configuração diferenciada, intrigante, suspeita, complexa, é verdade, mas ainda uma faceta, digamos, “epidérmica” da linguagem, nem por isso menos relevante.
Nesse contexto, é de pouca ou nenhuma valia todo esse subjetivismo supersticioso e absolutista que pretendem impor ao texto, quase sempre com o fim de resgatá-lo da efemeridade.
Daí, o maior desafio que um poema nos propõe talvez não seja tanto aquele mergulho nas fontes sintomáticas, indicativas de algum recalque ou saliência cármica aproveitados pela perícia técnica do autor; enfim, esses traumas tantas vezes denunciados pelo psiquismo de contraste.

Cândido Rolim

sábado, 2 de maio de 2009

excerto e reprise



O Museu Iberê Camargo guarda algumas semelhanças com o Guggenheim, mas não com o de Bilbao, e sim com o Guggenheim museum de Nova York. Álvaro Siza não se põe à parte das questões arquitetônicas do seu tempo. Na superfície, as duas obras se equivalem: a utilização do cimento branco (que muda de aparência com o passar do tempo); a combinação — mais acentuada na obra de Siza — de curvas moles e oleosas com dobras, arestas e cortes afiados, angulosos, presentes na linha das rampas internas e externas. Estas se projetam sobre o aspecto externo do prédio, a um só tempo, coladas e descoladas de sua fachada. Pelo lado de dentro o visitante pode se deslocar de um andar para o outro evitando, se assim o quiser, o elevador e a escada, fazendo esse percurso através das rampas-corredores. Estes acessos cumprem também uma função de descompressão, de pausa, de vazio, enfim, se configuram num contraponto ao impacto grandioso da “lama estelar” (metáfora empregada por Ferreira Gullar a propósito) da imaginação pictórica de Iberê Camargo. Descendo/subindo pelo delicado plano inclinado desses corredores que são rampas, em dois ou três pontos isolados, Álvaro Siza recortou no cimento umas aberturas envidraçadas através das quais o visitante divisa, aqui, uma nesga de céu, e, ali, um fragmento lacustre da paisagem porto-alegrense. São duas ou três estreitas escotilhas de escape. Parece pouco para uma pausa satisfatória diante da eloqüência, da retórica compacta dessa pintura inventada por Iberê Camargo, às vezes algo jaculatória e gesticulatória em sua expressividade. Mas Siza não quer que o visitante desperdice a sua atenção: os corredores são lances de pensamento. É como aquele momento em que de repente o leitor levanta a fronte das páginas do livro, não para recusar o que acaba de ler, mas, pelo contrário, para tentar concentrar, capturar, expropriar para si a lógica sensível contida naquele passo do texto que, de pronto, já se tornou parte integrante da intimidade dos seus biografemas.

(a íntegra em: http://www.portalliteral.com.br/artigos/uma-assinatura-monumental)

ronald augusto

segunda-feira, 27 de abril de 2009

durável agonística


Seja na mão de um realismo esbanjador à Mel Gibson (ouso imaginar), seja através da beleza harmoniosa dos clássicos, a imagem de São Sebastião/Oxossi continua a se reproduzir pródiga em resistência e em serenidade diante da provação: tudo parece desdenhar os limites da suportabilidade (do humano?), nada capaz de conter a pulsão hemofílica do santo, levemente escorado numa árvore, à espera de uma leitura, de uma devoção.
Os canteiros religiosos estão prenhes dessa didática martiriológica, em que um signo ou um artefato, convocado para uma tarefa de perene convencimento, extrapola, exangue, os limites da realidade con/figurada. Resultado: a eficácia moral da imagem-ícone parece frustrada por seu próprio esforço extravagante de fidelidade: ambigüidade da morte mais imitada que vivida.
Como no prodígio de lanças atravessando um paisano no filme “La Notte di San Lorenzo”, os traços da realidade e da convenção são mutuamente dissolvidos: aqui, na estampa sacra, o desperdício da agrura aborta todo projeto de sugestão, diluindo também os nutrientes da curiosidade idólatra. A imagem do sacrifício equivalente ao sacrifício da imagem.
Fato é que, nesses casos, o suplício hiperbólico da carne, submetido à máxima vigília conduz a dor (ou sua imagem) à indolência e a inteireza do mosaico icônico, até então amalgamado por um olhar piedoso, crente, totalizador, esfacela-se, de forma que nem a graça, a indiferença ou as interpelações fanáticas, que não raro enxergam por vislumbres, conseguem mais recuperar.

Cândido Rolim

quarta-feira, 22 de abril de 2009

fluidos de um amargo sal


Diante de uma poesia que não esconda sua vocação para a fúria e a transgressão, muito além de um mero decalque elegante do entorno árduo que envolve o autor, é possível que ainda se cobre deste um maior comprometimento com “o que lhe é próprio” ou uma coerência discursiva, algo que o livre de “não ser somente um militante altissonante da causa”. Coisas do gênero.
Mas, antes de qualquer coisa, vale lembrar que nem sempre a poesia quer comover-se com somente falar de si, sob pena de extrema deslealdade com o que se quer, bem ou mal, dar a pensar, sentir, contra/dizer.
Em textos poéticos “de combate”, tudo leva a crer que os elementos semânticos e sintáticos sejam mais ou menos alinhados com as circunstâncias ideológicas, quanto mais enredados estes estejam na trama sígnica. Mas, convenhamos, seja de que assunto trate, dificilmente um poema se compraz em figurar como componente irredutível de uma convicção.
Cito como base a escrita de Adão Ventura, poeta morto em 2004. Para onde o leitor se desloque na superfície suspeita do texto, que tampouco se esgota no discurso afiançado pelos insumos etno/gráficos, não há divisórias claras entre imagem e mensagem.
Aqui, agitada pela linguagem, a bandeira pele é percutida por uma raiva contida e continente, ênfase esfaceladora e atordoante de um balbucio-fala de arremedo, de triturante intenção mandibular. A boca como sede de expressão e ataque.
A propósito, qual a ginga adequada e eficaz para saltar sobre a paliçada erguida na pele, enquanto aqui fora rola um pálido debate acadêmico entre críticos e poetas acerca de a que mundo se refere o texto poético? A poesia de Adão Ventura, feita de dísticos breves e contundentes, sem lamúria, lança-se feroz sobre os adágios cínicos da história. Dois exemplos:

Fábula

Engolir sapo seco
ou vestir a camisa
dos camaleões.

Engolir sapo seco
por qualquer traste
ou migalha.

Engolir sapo seco
ao sabor do esterco
e da farsa.

Engolir sapo seco
ou mijar
pelas pernas abaixo.

Engolir sapo seco
ao invés
de sangrar os porcos.


Dar nome aos bois

Dar nome aos bois,
apartá-los em mangas privilegiadas
- de preferência com capins
de fios de ouro
ou prata.

- Isolando-os da ralé dos bois de
corte.


Cândido Rolim

terça-feira, 7 de abril de 2009

vocês que são brancos...



Os pragmáticos representantes do mundo empresarial e os obedientes servidores do estado ligados aos fatos da cultura, associados ou não na instalação e realização de prêmios, concursos, oficinas, entre outras atividades, talvez façam isso por sofrerem uma atração pelos sujeitos da “alta cultura” (escritores, artistas, pensadores, etc.). Pois o refinamento em que por acaso esbarram quando confinam com essas pessoas lhes promete aquilo de que são privados por serem incultos.

Dessa sensação de inferioridade experimentada por esses empreendedores e marqueteiros agora encravados na dinâmica cultural resulta talvez uma tradição que não contempla nas relações entre o artista e as figuras desse mecenato perverso (a movimentar-se em todas as direções) a possibilidade de que os últimos sejam vítimas de qualquer desvantagem ou prejuízo. Isto significa que todas as “desinteressadas” atuações na área (oriundas quer dos interesses públicos, quer dos interesses privados) servem mais aos próprios promotores do que a qualquer outro pobre diabo.


ronald augusto

terça-feira, 31 de março de 2009

conversando sobre haikai em santa rosa / RS


O haikai tal como agora o conhecemos é algo “fora-do-lugar”; é um gênero transculturado. Isto é, o haikai é uma invenção, no sentido em que era inexistente ou parecia ser impossível e impensável em português ou em qualquer outro idioma que não o japonês. E, como invenção, o que importa, hoje, é a margem de liberdade com que trabalha o poeta na re-acomodação dos seus dados visando à criação original.

Portanto, sua reencarnação ou aclimatação em terras estrangeiras, nos permite aceitar tanto haikais mais reverentes ao “espírito” tradicional, quanto outros, digamos assim, mais miscigenados, impuros. Neste rol, entram também os poemas breves, e a este propósito os poemas de Oswald de Andrade, p.ex., têm por assim dizer uma certa consangüinidade com a poética da brevidade do haikai.

Os grandes artistas e pensadores nos fazem acreditar em suas ilusões e perplexidades, fazem-nas possíveis, plausíveis para a nossa sensibilidade. E muitas dessas ilusões orientam as nossas visões de mundo e nossas ações sobre ele.

Pois bem, embora eu não seja um desses grandes artistas, vou tentar fazer com que uma das minhas ilusões pareça plausível, ou no mínimo tolerável, ao menos para alguns leitores e internautas (que são coisas diferentes).

Minha tese/ilusão é a seguinte: o haikai está para a poesia assim como a poesia está para a literatura. São coisas diversas, com semióticas particulares.

O haikai não é bem poesia, embora possa ser enfiado, não sem algum esforço, no escaninho, na tradição do gênero lírico.

Poesia não é bem literatura, embora também tenha sido acolhida por uma visão escolástica consagrada pelo tempo que concebe o literário na perspectiva do deleitar que educa e enobrece o espírito. Mas aí, mesmo, poderíamos sublinhar um desvio de rota operado pela poesia em relação à literatura: esta é mais rente ao utilitarismo semântico; por outro lado, aquela (a poesia) sugere os seus sentidos antes pelas relações musicais-espaciais entretecidas em seu discurso do que por uma necessidade supostamente elevada de dizer ou de ensinar. Alguém já definiu a poesia como “beleza inútil”. A beleza não precisa de justificativa. O signo estético é intraduzível.


ronald augusto

quinta-feira, 26 de março de 2009

poesia uma conversa

papo com Carlos Augusto Lima no DN (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=62380)

Uma conversa: poesia nº 1

O título desta coluna se propõe como uma marca. Melhor: uma marca que é só lâmina, faca e corte. Um golpe no silêncio, na quietude e no marasmo da discussão pública a respeito do que se produz em matéria de literatura nesta cidade. Um pequeno mas preciso golpe, quase cirúrgico. O título desta coluna tem origem e dava nome a um projeto surgido ainda nos princípios dos anos 90, uma parceria minha com Manoel Ricardo de Lima (também articulista deste caderno) num circuito de falas, palestras e debates entorno da produção contemporânea de literatura. O nome poesia aqui fora usado em sua amplitude. Uma forma de inserir a cidade e alguns poucos, mas preciosos interessados, no que se estava produzindo no restante do país e algo de muito interessante que por ventura surgisse na cidade. O projeto passou ( e teve como ponto de partida) o bonito projeto de livraria da escritora Socorro Acioli (Livros e....), por outros lugares e encontrando pouso pelo Alpendre, até se tornar uma idéia contínua, uma memória e ser recuperado neste momento, agora.Uma Conversa: Poesia é retomado com esta missão de reforçar isso mesmo: conversa, pensamento, discussão. E trará não só poetas, mas gente que desenvolva uma poyesis nos mais diferentes sentidos e linguagens aqui na cidade e além dela, que assim seja. Nomes que são escolhas, diga-se de passagem, e de imediato, muitas particulares, mas que representam alguma possibilidade de idéias curiosas e potentes a partir deste lugar.Para começo de conversa, o pensamento do poeta. Para começo desta conversa, a palavra de Cândido Rolim. Cearense de Lavras, assumiu a condição nômade e, depois de anos fora, retornou a cidade, onde tenta estabelecer sutilmente algum diálogo, vínculo antes mesmo que a própria cidade o expulse novamente. È autor de ´Exemplos Alados´(Letra e Música, 1998), ´Pedra Habitada´(AGE, 2002), ´Fragma´(Funcet, 2007) e o mais recente ´Camisa Qual´(Éblis, 2008). Para mais: http://signagem.blogspot.com/.

CAL — Por que escrever poesia, essa insistência ?

CR — Embora não goste muito de fazer analogias entre a poesia e certas tarefas que, pelo hábito ou pelo pragmatismo, foram guindadas à categoria de necessidade, uma boa justificativa para se continuar a escrever poesia é encará-la como um puro fazer impuro, sem expectativas de fundo e fundos. Há aqueles que vislumbram uma essencialidade vital na tarefa de escrever e quanto mais em escrever poesia. Minhas lentes fatigadas não chegam a tanto. A essa altura do campeonato, a justificativa que encontro ou que pretendo injetar, talvez para disfarçar melhor minha ironia, está em escrever para confiar a mim mesmo a tarefa de tentar realizar um objeto verbal provisoriamente curioso.

CAL — Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje?

CR — A vida em si, deixou de ser épica. A história se acomoda a compartimentos e leituras cada vez mais exíguos, privatísticos. As tomadas do plano já não são tão abertas. Os gestos políticos, antevendo seu malogro em tentar convencer os cidadãos de sua impostura e impotência em dissolver os atritos da relação público x privado, são impessoalizados, submetidos aos ambientes rarefeitos. Quer dizer: nem na política se dá mais a intenção arrebatadora, convocante, redentora. Como lembrava Haroldo de Campos, não vivemos mais em um mundo de guerreiros e celebrantes. Embora possa ainda ser lido como sintoma e índice de sua época, porque sofre os insumos lingüísticos e vivenciais do seu entorno, o comportamento da poesia (melhor, da expressão poética), no embate com o mundo, talvez se ache parcialmente resolvido em sua recusa em se alistar na linha de frente dos impasses violentos da contemporaneidade. Mas sua elaboração, inaudível a princípio, quando submetida a uma tomada de ´plano fechado´ tem sua razão de ser, nisso que você fala de ´insistência´. É que, após o advento da crítica, a poesia gasta muita energia consigo própria, a ponto de não ser de todo errado afirmar que sua primeira resistência é contra seus próprios desvios, sua resolução dentro da própria linguagem. Por outro lado, vale lembrar que esses impasses não são próprios da contemporaneidade. Em tempos não tão distantes, poetas também praticavam sua escrita nas frestas de um mundo em crise. E se é verdade o que dizem - que não há condições ideais para escrever, fazer poesia continua subsumindo-se à condição de uma práticas ética e esteticamente relevante, quase alheia a cotação que costumam lhe conceder.

CAL — Poesia e tecnologia, poesia e novos meios, fala-se muito disso. Trata-se realmente de um novo problema, você tem observado um discurso novo a partir disso, ou é pura falácia?

CR — Diante de tanta pretensão ao todo, à catalogação geral, à funcionalidade, às vezes convém colocar as coisas em seus lugares. Se considerarmos a poesia como um produto da linguagem ou da imaginação (que tem sua fonte naquela), poesia como um atrito des/informante entre sentido e imagem, é óbvio que as ferramentas que irão veicular as mensagens daí decorrentes (livro, blog, e-mails), talvez só mui timidamente, irão influir (se de fato tiverem esse poder) nelas a ponto de estabelecer uma nova linguagem. Desconfio até que, de repente, será a expressão poética que irá se servir dos vícios desses novos meios! Noto que, a par de um incremento tecnológico na veiculação das mensagens, principalmente no que diz respeito à rapidez da informação, o ´caráter´ desses textos sofrem os mesmos refinamentos, vicissitudes, apuro, equívoco, indigências da mente que os escreve. Quer dizer, tal como se dá com o livro, o meio socorre pifiamente a mensagem.

CAL — Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipos de reflexões podemos apontar a partir desse dado.

CR — Vindo do interior, residi em Fortaleza por 6 anos até o ano de 1984. Saí e re-resido há 4 anos aqui. O desconhecimento com a cidade e a timidez com que me acerco a suas instituições (literárias ou não) me outorgaram uma estranha sensação de estrangeiro, sem os privilégios turísticos deste. Ou, pior, com aquela idéia meio acabrunhada de que Fortaleza tem seus donos. Ignorando um pouco o deslumbramento que noto em alguns poetas, aqui como alhures, de serem agraciados como ´cantores da cidade´ e de se sentirem confortáveis com a aceitação ´até certo ponto´ de sua ´expertise´ a serviço da comarca, cuido de traçar condições materiais mínimas para viver, ler, escrever e realizar um diálogo com poetas contemporâneos ´desde Fortaleza´, com cuja linguagem me identifico. Para esse fim, a geografia conta pouco.

domingo, 22 de março de 2009

polifonia da percepção verbal às fotos de CR

foto (manipulada) de cândido rolim

ínfimas máscaras polifêmicas
aparas de neo alumínio barato

afiveladas à tresleitura do desejo de interpretação
bocarras hiantes a custa de lupa e close reading

liliputiana goela famélica
onde a metonímia de um corpo-petisco

vítima última
do nexo

e do lixo sacrificial


ronald augusto

segunda-feira, 16 de março de 2009

um belo às vezes sem sentido

Na poesia talvez não seja tão vantajoso sobrepor a compreensão ao deleite com os pormenores acidentais da linguagem (gráficos, sonoros, sintáticos, espaciais, imagéticos).
Se a maior fratura operada no texto não se atribui tão só à performance semântica de seus termos, tampouco o leitor ganha mais em ancorar-se com exclusividade em elementos costumeiramente destacáveis, “poéticos”, fomentadores da compreensão.
Apesar de nele alguma preponderância ser quase sempre redutora, talvez seja por obra do atrito des/informante entre imagem e sentido que faz o poema desencadear a fruição de um belo difícil, tão sem sentido às vezes.

Cândido Rolim

folia da percepção




fotos by Cândido Rolim

quinta-feira, 12 de março de 2009

jogo de traduções e traições para um poema de RA

The Return
(translated from the Portuguese by Isis McElroy)

racial prejudice lives opens up its eyes hibernates in an intermediary zone mid history conventions like a divine text standard millenarian con job and the kingdom of stupidity congenital at birth emotional intellectual of the soul breath of the bared skinned monkey
but the audacity the panache the afro affront of the black man he who talks back retorts in legitimate attack stylishly blunt not beating around the bush and no longer swallowing the given-notion that racism has been ushered into a limbo
walled up with limbo so that the squally dregs of the niggers wouldn't crush it into a white powder immemorial marmoreal a limbo which provided providing shelter to racism which in time returns halt about-face returns in public visitation getting wind of the air invigorated by young leaves and eager not to see the infinite black spaces where puny stars coruscate


A Volta
(paulo de toledo, do inlgês para o português)

o preconceito racial vive abre seus olhos hiberna em uma zona intermediária convenções de história média como um texto divino milenar chupada padronizada e o reinado da estupidez congenital ao nascimento emocional intelectual daalma respiro do nu em pêlo macaco

mas a audácia a pretensão a afroafronta do homem negro ele que retrucaretorque em legítimo ataque esplendidamente brusco
sem enrolações e sem mais engolir a antiga noção de que o racismo foi lançado para umlimbo

emparedado num limbo
para que as ameaçadoras escórias dos negros não detonassem o poder branco imemorial marmoreal um limbo que ofereceu oferece proteção ao racismo que em tempo volta diante de nós volta a público revigorado pelo vento novo de novas folhas e ávido por não ver os infinitos espaços negros onde pequeninas estrelas coruscam

______________________________

O Retorno
(ronald augusto)

o preconceito racial vive abre os olhos hibema numa zona intermédia entre o costume história como texto divino hábito treta milenar e o reino da estupidez congenial ao nascimento sentimental intelectual da alma sopro do macaco desnudo depelado
mas a audácia o topete a afronta afro do negro aquele um que responde retruca em legítimo ataque e de maneira sem papado na língua sem travas na e não engolindo mais a meia-idéia de que para um limbo tenha sido conduzido o racismo
um limbo murando-o para que borrascas borra de negrada não o reduzisse a pó branco imêmore marmóreo um limbo que servisse servindo de abrigo ao racismo para então alguma vez torna e meia-volta re-tornar em visitação pública farejando o ar revigorado de novas folhas e disposto a não ver os negros espaços infinitos onde coruscam ínfimas estrelas

quarta-feira, 11 de março de 2009

colher os frutos da dança




dia 5 de março último comemorou-se o centenário do festejado Patativa do Assaré, dono de um lisonjeiro posto na poesia popular e, por extensão, na cultura cearense.
um pouco à deriva desses gestos retumbantes de apropriação ao mesmo tempo oportunista e enfadonha do "gênio iletrado" e um pouco abaixo da linha da nobreza, gosto de vasculhar e entrever, nesse terreno infestado de cantadores, uma classe de desníveis sumosos da língua, arquitetados por poetas “menores”, em vadiagem pela sintaxe malaprendida, geralmente dedicados à prática de fazer versos a rogo ou a troco de nada, com trejeitos levemente emprestados da tradição provençal longínqua (ambigüidade do eco), para ira ou deleite das gentes do lugar.
fico, por enquanto, com esses versos de Raimundo Lucas Bidinho, poeta de Várzea Alegre, morto em 2004, de um curioso livro ofertado em 1993. A elegância pária do sermo plebeius glosando e glissando a língua de cima:

em uma tarde ditosa
nem clara, nem nebulosa

...

me poribiram comer
na mesa alheia ou na minha

...

- Galdino, eu sou da pesada!
Minha força é oriunda

...

E vi surgir na poeira
Uma ossada extranoeira

...

Provia do meu jardim
Se transformar em roçado
Todos cabocos safado
Faziam crica de mim
Mais eu não achava ruim
Eu tinha arroz no paió
Aos sabos ia ao forró
Cuier os fruito da dança
Tombem lográ a herança
Qui herdei da minha vó

Cândido Rolim

quarta-feira, 4 de março de 2009

prosaica necessidade

Para o bem ou para o mal, a poesia é uma das poucas linguagens que
parece resistir a abandonar sua perícia em proveito da desmesura e do erro,
como se invariavelmente se propusesse uma auto-justificação para o rigor.
O uso perdulário da metalinguagem, de certa forma, denuncia essa fixação pelas
manobras auto-referentes em detrimento do resultado estético em si, tanto quanto fruível.
Seduzido mais pelo procedimento que por seus produtos efêmeros, o texto poético parece constantemente migrar para sua adjacência performática.
Perseguidor de um uso adequado para o pasmo e o impasse,
o poeta elege essa sedutora intermediação da língua como âmbito quase fatalista
através do qual ele cumpre sua rota rumo ao aprimoramento, à traiçoeira maturidade.

Cândido Rolim

moradia - esboço (horizonte CE)



Foto by Cândido Rolim

domingo, 1 de março de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

eco épico e cólica lírica

www.verbavisual.blogspot.com

O épico se funda nas narrativas do passado, na oratura dos mitos (história), e, paradoxalmente, no projeto utópico de construção de uma identidade e de um verismo nacionais. O poema épico plasma a língua e elementos performativos da cultura de um povo. A clave lírica pertence à categoria do existente efêmero e vai operar sobre o real em processo, a partir da singularidade da fala que denuncia os sinais fonológicos da pessoa-indivíduo; e esta linguagem de alguns instantes vem a ser o poema da modernidade.

Hoje, a balança épico/lírico se encontra francamente desequilibrada para o lado do lírico-fala-linguagem. Estamos mais aptos a apreciar a linhagem/linguagem de poetas da fragmentação e da polissemia, do que a linha/língua de artistas mais objetivistas, devotados à recuperação de uma expressão clara, narrativa, e de comunicação realista ou referencial.


ronald augusto

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ébrio desequilivro




o torpedeamento do plasma estético contemporâneo, queira ou não, tem que passar por um gesto de aproveitamento do que melhor e pior se fez em nível de experimentação do solo dúctil da palavra e os espaços im/prováveis onde ela atua. de quebra, com todas as dobras estéticas e éticas praticadas sobre utensílios e objetos midiáticos (nós que estamos cegos de tanto ver). citem-se Warhol, Duchamps, Brossa, esse time todo.

a inquietação levada tão só na ordem programática de um projeto de ruptura corre o risco de diluir-se na e pela própria sofreguidão pelo novo: brochura e brochada da radicalidade a meio-pau.

mas ela, a tentativa de re-verter para uma outra leitura a face costumada, deve estar sim, sempre, na tensão de um estágio estético.

não é o caso aqui: um fazer tenaz, quase abstraído de sua irreverência.

Cândido Rolim

canto paralelo


uma figura possível para a minha idéia de leitura criativa: aquela que poderia ser irmã siamesa da operação tradutória; aquela rente à leitura que se faz de lápis em punho. o poema assediado por meio de rasuras e escarificações à margem da "mancha gráfica" da página. leitura como reencenação mental de uma signagem poética particular.

não se trataria mais da leitura física apenas, fonema a fonema, palavra a palavra, sintagma a sintagma, etc., que resulta, segundo schopenhauer em mera repetição (à boca pequena, em silêncio ou à viva voz) do processo mental do autor: essa sorte de leitura obediente.


ronald augusto

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

nos deslimites do leitor

emprestada à imaginação crítica de paul zumthor
uma bela definição de poesia:
“sua forma é imagem:
fruto de uma operação pessoal,
cujas regras heurísticas se fundamentam
num sedimento de experiências
mal comunicáveis como tal,
inexplícitáveis,
injustificáveis,
aprisionadas nos limites
de um indivíduo vivo”.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

objeto in situ / mostra de eduardo frota





Planos que se destacam de uma remota invisibilidade, abandonados a um oblíquo exercício de interferência no opaco. Lâminas, gomos, gumes; jorro enviesado da transparência, em certos momentos invasiva, noutros em vôo tangente, cortando a madeira-carne, desbordando o limiar dos artifícios fixos, artifixos, lúbrica e lúdica.

A transparência em plaquete oblíqua quase vence a platitude da madeira, rumo ao chão.


Está-se dentro ou fora de um contorno sem centro, aberto, instaurado para fora, devotado ao vazio.

A lâmina prestes a varar o panteão ameaçador – passagem para orum? – inspira medo, suspense, submissa vigília; nossa cabeça mínima, ori-minimal: e os olhos, pequenos objetos de ver, se oprimem num pressentimento, o sobrevôo de uma vasta clave ausente: o homem é involucrado nessa indecisão arqui-tectônica, submetido a um delírio guilhotinesco. Coberto por um metro quadrado de acrílico, dúbio, que pode protegê-lo, expondo-o, ou decepa-lo.

Afinal, de onde vem a translucidez furtiva que sufoca nossa apreensão? Em que zona refratária se tocam esse objeto sem sítio e o corpo semovente?


Cândido Rolim

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