As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

furos de uma linguagem oportunista

Por parecer tão indiferente às investidas político-acadêmicas sobre seu mérito “estético” talvez seja somente a partir da índole de seus conteúdos psicossomáticos que o discurso da auto-ajuda deva ser lido com mais atenção. E sob esse aspecto, é provável que essa linguagem nada mais pretenda senão implantar, antes de qualquer coisa, a necessidade de auto-ajuda.
Com efeito, ministrando posturas e uma casta de hábitos comumente prescritos e reeditados por quem já se beneficiou desse mesmo discurso, contrário do que aparenta, ela não se sobressai somente às custas da consciência inerte do destinatário: levemente decalcada do fetiche burguês da vida (e da morte) ideal e conjugada a um psicologismo “vulgar”, essa linguagem sobrevive (e eventualmente seduz) através de uma estratégia de esvaziamento. Está-se diante de uma necessidade planejada e, talvez por isso mesmo, as doses de seu otimismo agressivo são ministradas à revelia da carência real.
Atenta demais a sintomas fictos e, mesmo assim, incapacitada para dissolvê-los, a auto-ajuda tira também proveito da normalidade: seus afetados mantras não dizem mais “você pode”, mas “você precisa”. E atrelada a esse adágio propagandístico que torna o leitor apto a sentir-se merecedor de algo de cuja posse jamais cogitou (posto, aparência, atitude, um estado de ânimo cobiçável), apaga do horizonte tudo aquilo que, bem ou mal, provisoriamente prevenia o sujeito de algum malogro iminente: a consciência mínima das circunstâncias concretas em que se achava inscrito.



Cândido Rolim

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