As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

durável agonística


Seja na mão de um realismo esbanjador à Mel Gibson (ouso imaginar), seja através da beleza harmoniosa dos clássicos, a imagem de São Sebastião/Oxossi continua a se reproduzir pródiga em resistência e em serenidade diante da provação: tudo parece desdenhar os limites da suportabilidade (do humano?), nada capaz de conter a pulsão hemofílica do santo, levemente escorado numa árvore, à espera de uma leitura, de uma devoção.
Os canteiros religiosos estão prenhes dessa didática martiriológica, em que um signo ou um artefato, convocado para uma tarefa de perene convencimento, extrapola, exangue, os limites da realidade con/figurada. Resultado: a eficácia moral da imagem-ícone parece frustrada por seu próprio esforço extravagante de fidelidade: ambigüidade da morte mais imitada que vivida.
Como no prodígio de lanças atravessando um paisano no filme “La Notte di San Lorenzo”, os traços da realidade e da convenção são mutuamente dissolvidos: aqui, na estampa sacra, o desperdício da agrura aborta todo projeto de sugestão, diluindo também os nutrientes da curiosidade idólatra. A imagem do sacrifício equivalente ao sacrifício da imagem.
Fato é que, nesses casos, o suplício hiperbólico da carne, submetido à máxima vigília conduz a dor (ou sua imagem) à indolência e a inteireza do mosaico icônico, até então amalgamado por um olhar piedoso, crente, totalizador, esfacela-se, de forma que nem a graça, a indiferença ou as interpelações fanáticas, que não raro enxergam por vislumbres, conseguem mais recuperar.

Cândido Rolim

quarta-feira, 22 de abril de 2009

fluidos de um amargo sal


Diante de uma poesia que não esconda sua vocação para a fúria e a transgressão, muito além de um mero decalque elegante do entorno árduo que envolve o autor, é possível que ainda se cobre deste um maior comprometimento com “o que lhe é próprio” ou uma coerência discursiva, algo que o livre de “não ser somente um militante altissonante da causa”. Coisas do gênero.
Mas, antes de qualquer coisa, vale lembrar que nem sempre a poesia quer comover-se com somente falar de si, sob pena de extrema deslealdade com o que se quer, bem ou mal, dar a pensar, sentir, contra/dizer.
Em textos poéticos “de combate”, tudo leva a crer que os elementos semânticos e sintáticos sejam mais ou menos alinhados com as circunstâncias ideológicas, quanto mais enredados estes estejam na trama sígnica. Mas, convenhamos, seja de que assunto trate, dificilmente um poema se compraz em figurar como componente irredutível de uma convicção.
Cito como base a escrita de Adão Ventura, poeta morto em 2004. Para onde o leitor se desloque na superfície suspeita do texto, que tampouco se esgota no discurso afiançado pelos insumos etno/gráficos, não há divisórias claras entre imagem e mensagem.
Aqui, agitada pela linguagem, a bandeira pele é percutida por uma raiva contida e continente, ênfase esfaceladora e atordoante de um balbucio-fala de arremedo, de triturante intenção mandibular. A boca como sede de expressão e ataque.
A propósito, qual a ginga adequada e eficaz para saltar sobre a paliçada erguida na pele, enquanto aqui fora rola um pálido debate acadêmico entre críticos e poetas acerca de a que mundo se refere o texto poético? A poesia de Adão Ventura, feita de dísticos breves e contundentes, sem lamúria, lança-se feroz sobre os adágios cínicos da história. Dois exemplos:

Fábula

Engolir sapo seco
ou vestir a camisa
dos camaleões.

Engolir sapo seco
por qualquer traste
ou migalha.

Engolir sapo seco
ao sabor do esterco
e da farsa.

Engolir sapo seco
ou mijar
pelas pernas abaixo.

Engolir sapo seco
ao invés
de sangrar os porcos.


Dar nome aos bois

Dar nome aos bois,
apartá-los em mangas privilegiadas
- de preferência com capins
de fios de ouro
ou prata.

- Isolando-os da ralé dos bois de
corte.


Cândido Rolim

terça-feira, 7 de abril de 2009

vocês que são brancos...



Os pragmáticos representantes do mundo empresarial e os obedientes servidores do estado ligados aos fatos da cultura, associados ou não na instalação e realização de prêmios, concursos, oficinas, entre outras atividades, talvez façam isso por sofrerem uma atração pelos sujeitos da “alta cultura” (escritores, artistas, pensadores, etc.). Pois o refinamento em que por acaso esbarram quando confinam com essas pessoas lhes promete aquilo de que são privados por serem incultos.

Dessa sensação de inferioridade experimentada por esses empreendedores e marqueteiros agora encravados na dinâmica cultural resulta talvez uma tradição que não contempla nas relações entre o artista e as figuras desse mecenato perverso (a movimentar-se em todas as direções) a possibilidade de que os últimos sejam vítimas de qualquer desvantagem ou prejuízo. Isto significa que todas as “desinteressadas” atuações na área (oriundas quer dos interesses públicos, quer dos interesses privados) servem mais aos próprios promotores do que a qualquer outro pobre diabo.


ronald augusto

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