As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

durável agonística


Seja na mão de um realismo esbanjador à Mel Gibson (ouso imaginar), seja através da beleza harmoniosa dos clássicos, a imagem de São Sebastião/Oxossi continua a se reproduzir pródiga em resistência e em serenidade diante da provação: tudo parece desdenhar os limites da suportabilidade (do humano?), nada capaz de conter a pulsão hemofílica do santo, levemente escorado numa árvore, à espera de uma leitura, de uma devoção.
Os canteiros religiosos estão prenhes dessa didática martiriológica, em que um signo ou um artefato, convocado para uma tarefa de perene convencimento, extrapola, exangue, os limites da realidade con/figurada. Resultado: a eficácia moral da imagem-ícone parece frustrada por seu próprio esforço extravagante de fidelidade: ambigüidade da morte mais imitada que vivida.
Como no prodígio de lanças atravessando um paisano no filme “La Notte di San Lorenzo”, os traços da realidade e da convenção são mutuamente dissolvidos: aqui, na estampa sacra, o desperdício da agrura aborta todo projeto de sugestão, diluindo também os nutrientes da curiosidade idólatra. A imagem do sacrifício equivalente ao sacrifício da imagem.
Fato é que, nesses casos, o suplício hiperbólico da carne, submetido à máxima vigília conduz a dor (ou sua imagem) à indolência e a inteireza do mosaico icônico, até então amalgamado por um olhar piedoso, crente, totalizador, esfacela-se, de forma que nem a graça, a indiferença ou as interpelações fanáticas, que não raro enxergam por vislumbres, conseguem mais recuperar.

Cândido Rolim

Um comentário:

  1. cândido, a porrada certa. espírito em espiras. pensamento físico, em ação.

    ronald

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