As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

sábado, 2 de maio de 2009

excerto e reprise



O Museu Iberê Camargo guarda algumas semelhanças com o Guggenheim, mas não com o de Bilbao, e sim com o Guggenheim museum de Nova York. Álvaro Siza não se põe à parte das questões arquitetônicas do seu tempo. Na superfície, as duas obras se equivalem: a utilização do cimento branco (que muda de aparência com o passar do tempo); a combinação — mais acentuada na obra de Siza — de curvas moles e oleosas com dobras, arestas e cortes afiados, angulosos, presentes na linha das rampas internas e externas. Estas se projetam sobre o aspecto externo do prédio, a um só tempo, coladas e descoladas de sua fachada. Pelo lado de dentro o visitante pode se deslocar de um andar para o outro evitando, se assim o quiser, o elevador e a escada, fazendo esse percurso através das rampas-corredores. Estes acessos cumprem também uma função de descompressão, de pausa, de vazio, enfim, se configuram num contraponto ao impacto grandioso da “lama estelar” (metáfora empregada por Ferreira Gullar a propósito) da imaginação pictórica de Iberê Camargo. Descendo/subindo pelo delicado plano inclinado desses corredores que são rampas, em dois ou três pontos isolados, Álvaro Siza recortou no cimento umas aberturas envidraçadas através das quais o visitante divisa, aqui, uma nesga de céu, e, ali, um fragmento lacustre da paisagem porto-alegrense. São duas ou três estreitas escotilhas de escape. Parece pouco para uma pausa satisfatória diante da eloqüência, da retórica compacta dessa pintura inventada por Iberê Camargo, às vezes algo jaculatória e gesticulatória em sua expressividade. Mas Siza não quer que o visitante desperdice a sua atenção: os corredores são lances de pensamento. É como aquele momento em que de repente o leitor levanta a fronte das páginas do livro, não para recusar o que acaba de ler, mas, pelo contrário, para tentar concentrar, capturar, expropriar para si a lógica sensível contida naquele passo do texto que, de pronto, já se tornou parte integrante da intimidade dos seus biografemas.

(a íntegra em: http://www.portalliteral.com.br/artigos/uma-assinatura-monumental)

ronald augusto

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