As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

a gênese suspeita da concordância



Se, para formar a estrutura do conhecimento se exige uma sutil anuência (uma concepção de Russell) ou uma confiança quase incondicional no que se vai conhecer, onde e quando começaria uma discrepância crítica e até onde esta iria sem a incômoda tarefa de rever-se?

Sob esse aspecto, as mentes que aparentemente pouco ou nada assimilam são, à primeira vista, também agentes de alguma resistência apreciável, principalmente por parecer desnecessário divulgarem os motivos pelos quais se incapacitam (ou se negam?) a apreender, sem reservas, o conteúdo da mensagem. Considerando que a rigor ninguém está livre da compreensão, não reside aí uma hábil estratégia travestida de inépcia que desfalca e tumultua a economia cumulativa dos sentidos?

Mas vale lembrar: se essas inteligências se ressentem de alguma agudeza crítica ou se mal e mal esboçam os traços de uma tímida discórdia, há ainda a suspeita de estarem menos sujeitas à imobilização ditada pelo apreço incondicional à idéia.

Cândido Rolim

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

furos de uma linguagem oportunista

Por parecer tão indiferente às investidas político-acadêmicas sobre seu mérito “estético” talvez seja somente a partir da índole de seus conteúdos psicossomáticos que o discurso da auto-ajuda deva ser lido com mais atenção. E sob esse aspecto, é provável que essa linguagem nada mais pretenda senão implantar, antes de qualquer coisa, a necessidade de auto-ajuda.
Com efeito, ministrando posturas e uma casta de hábitos comumente prescritos e reeditados por quem já se beneficiou desse mesmo discurso, contrário do que aparenta, ela não se sobressai somente às custas da consciência inerte do destinatário: levemente decalcada do fetiche burguês da vida (e da morte) ideal e conjugada a um psicologismo “vulgar”, essa linguagem sobrevive (e eventualmente seduz) através de uma estratégia de esvaziamento. Está-se diante de uma necessidade planejada e, talvez por isso mesmo, as doses de seu otimismo agressivo são ministradas à revelia da carência real.
Atenta demais a sintomas fictos e, mesmo assim, incapacitada para dissolvê-los, a auto-ajuda tira também proveito da normalidade: seus afetados mantras não dizem mais “você pode”, mas “você precisa”. E atrelada a esse adágio propagandístico que torna o leitor apto a sentir-se merecedor de algo de cuja posse jamais cogitou (posto, aparência, atitude, um estado de ânimo cobiçável), apaga do horizonte tudo aquilo que, bem ou mal, provisoriamente prevenia o sujeito de algum malogro iminente: a consciência mínima das circunstâncias concretas em que se achava inscrito.



Cândido Rolim

manipulação a partir de uma sinopse de auto-ajuda




Num mundo competitivo e veloz como o nosso é preciso se destacar dentre a multidão para obter sucesso. Você precisa se preparar para ter a seu favor, diferenciais que alavanquem a sua vida, seus negócios e sua carreira. Assuma a responsabilidade pelo seu sucesso. Não deixe seu sonho na mão dos outros, assuma o comando da sua vida.


Cândido Rolim

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A crítica que não se critica



Muitas vezes a atuação da crítica consiste em impor sutilmente uma perspectiva, de preferência aquela a partir da qual se sinta mais confortável para apreciar ou destruir algo.
Por exemplo: é estranho que a crítica se desestimule a “interpretar” ou ver uma obra a despeito de sua estranheza, vista aqui como desconformidade a um modelo cuja identidade ela crítica não sabe ainda confrontar com segurança a não ser em relação aos “pontos elevados da cultura” ou aos frutos do esmero particular dos gênios.
Essa tarefa parcial - interpretar obras pelas lentes de um modelo clara ou veladamente imposto - se não subministrou até agora toda uma tradição analítica, da qual a crítica contemporânea é também tributária, ao que parece estabeleceu hábitos que alimentam um antagonismo supersticioso ou, pior, ditou uma postura alérgica ou demasiado comedida com relação ao que se faz desde o presente.

Cândido Rolim

Ilustração: O Crânio (Sílvia Rejane de Assis)

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