As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

desde uma questão posta por Renato Mazzini

R.M. - Concordo com o que é dito sobre o subjetivismo poético, e acho que o adjetivo ‘supersticioso’ empregado ali foi pontualíssimo. A respeito da epiderme e do estofo do poema, me pergunto: o gesto deflagrador do texto poético, o que primeiro impulsiona o criar do poema, é um gesto puramente 'natural' ou é produto de forjas? Pergunto, porque o movimento de re-solução do poema, reestruturador, aparenta ser mais intrinsecamente relacionado ao formão, visando resolver melhor uma estrutura já projetada ou chegar à sua inevitabilidade máxima. Mas e o movimento originário? Mesmo sendo impelido por estímulos externos, ainda assim, é natural ou espontâneo?

C.R. – 1. considerando o texto, sua configuração em estado de leitura, muito difícil precisar onde prepondera o escrutínio, onde o azar ou a coincidência se instalam. Como se sabe, a convenção permeia mesmo nossas posturas mais naturais. O próprio pensamento, antes de concatenar-se tenta desvencilhar-se de uma impertinente rede de convenções insinuantes. Por isso mesmo, um construto verbal tipo poema não pode ser visto somente como uma graça do sujeito.

2. à medida do possível, desvincular o texto de seus insumos místicos, inatingíveis pela atenção do leitor ou imunes a uma pragmática profana do intelecto: esses elementos que, por seu arbitrário grau de “inefabilidade” adquirem status de predominância ou, pior, de elementos tanto definidores como “característicos” da linguagem poética. Também não significa dizer que, depois de lido, descontada a perícia e repertório do leitor/autor, o poema se exonere de suas estranhezas.

3. não por acaso esses elementos “esotéricos” que por um lado condicionam e até atraem a fruição do texto e por outro interditam uma fruição, digamos, anti-poética desse dogma, estão quase sempre enquistados naquele “subjetivismo supersticioso”. Daí toda aproximação crítica ao texto poético ser tida como uma tentativa subversiva de explodir essa bolha de tra(u)mas insondáveis, levando suas fontes viris ao esgotamento.

4. no poema tudo ou quase tudo se resolve na superfície atritada da linguagem. Aí, nesse solo suspeito e suspenso talvez não exista distância nem distinção clara entre naturalidade e artifício. Se não irrelevante, no poema, o grau de manipulação do intelecto seria provisoriamente adiado, até certo ponto desconsiderado. Quer dizer: as pulsões imaginativas ou sentimentais que irão desencadear o texto (nem mais nem menos que a vigília estruturante e seletiva do autor) ao fim e ao cabo restarão dissolvidas por uma ordem de imagens e idéias plasmadas em um “discurso” dito ou subentendido. Tudo configurada na e pela linguagem, sujeito a impasses e diluições.

5. é também esse subjetivismo, rico em perplexidades postiças, que postula ser da prosa a prerrogativa da objetividade concreta e chã, sobrando à poesia a tarefa “nobre” de lidar com o imponderável, algo assim como ser representante eterna de uma decência.

Cândido Rolim

3 comentários:

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  3. NA SUPERFICIE ATRITADA DA LINGUAGEM... POR ISSO UM POEMA É ALGO DISSIPATIVO, NÃO SÓLIDO QUANTO A PROSA POR EXEMPLO.È VOLATIL, ESPACIAL, MUSICAL...E ESTÁ NA FRONTEIRA DA LITERATURA E SUAS REINVENÇÕES. qUAL O IMPULSO INICIAL, O MOTE, MOTIVO, NÃO IMPORTA, OU NÃO É O FOCO, MAS O DESENVOLVIMENTO, A FORMA, O PRODUTO.
    Tom Gil

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