As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

pequeno incômodo à claridade


A sintaxe parece não servir mais de auxílio a um arranjo fulgurante (e previsível) de efeitos estéticos (metáforas, arremates, achados, sinestesias, aliterações) nem à catalogação de um repertório de gestos que evidenciam “conquistas plásticas” arrebatadoras ou “maturidade expressiva” em demanda do belo, mas a dar testemunho de uma suspensão, de certa forma indócil, da tradição vista como instância de fomento às operações estéticas de um devir.

O poeta opta por dar lugar aos registros mínimos do percurso, mesmo consciente da impossibilidade de adequação do dito ao visto. Melhor dizendo, aquela, a tradição canônica, parece anunciar seus vestígios desde um plano menos evidente, como em trânsito vertiginoso para a diluição.

No seu recente “Paisagem com dentes” (Oficina Raquel, 2009), o poeta paulista Renato Mazzini parece desdenhar a ruptura ou, pelo menos à primeira vista, não parece tê-la como um fazer mais proveitoso que transpor aquelas objetividades “menores” (a mácula de uma roupa deixada/do avesso sobre o corpo estirado/no chão, sem estar rente: costas,/costelas, sal, maço de cigarros – p.42) além de ocupar-se em rivalizar com impasses estéticos mais minuciosos, geralmente escamoteados por poetas que optam tão somente pelo “poético”.

Noto, tal como em algumas escassas escrituras do presente que, aos poucos, a poesia se desprende dos ramos de uma matriz imagética ou de uma praxe metalingüística que, a essa altura, já não merece mais contrariedade nem estímulo.

Com efeito, aqui, a sintaxe destaca-se como ferramenta de uma operação que quase aniquila o ritmo do raciocínio e, paradoxalmente, arrisca-se a desfazer o próprio traçado da experiência estética, mas se permitindo um registro elíptico e raro da vivência (decido resumir um percurso íngreme/ entre você e as alternância de uma/ fileira de postes..., As Cortinas, p.22) .

Enfim, o patético da arte conformada a um fim ou o ideal de comprazimento por conta de uma experiência formal sem objetivo algum, tudo isso parece triturado aqui, sem alarde, nos dentes de uma proposta discursiva em esgalho, que parece zelar pelo momentâneo das coisas.

CândidoRolim

Um comentário:

  1. Cândido, olha só, esse seu texto é desde já uma referência na compreensão de alguns matizes da poesia contemporânea que tenho tentado perseguir nos últimos tempos. É, sou meio atrasado em leituras, mas a saída da academia me deu essa vontade de oxigênio, que a prosa e poesia de agora (inclusive a sua) tem me proporcionado. Veja só, eu gostaria de ter escrito o segundo parágrafo, inteiro. Belo texto.

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