As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

quinta-feira, 26 de março de 2009

poesia uma conversa

papo com Carlos Augusto Lima no DN (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=62380)

Uma conversa: poesia nº 1

O título desta coluna se propõe como uma marca. Melhor: uma marca que é só lâmina, faca e corte. Um golpe no silêncio, na quietude e no marasmo da discussão pública a respeito do que se produz em matéria de literatura nesta cidade. Um pequeno mas preciso golpe, quase cirúrgico. O título desta coluna tem origem e dava nome a um projeto surgido ainda nos princípios dos anos 90, uma parceria minha com Manoel Ricardo de Lima (também articulista deste caderno) num circuito de falas, palestras e debates entorno da produção contemporânea de literatura. O nome poesia aqui fora usado em sua amplitude. Uma forma de inserir a cidade e alguns poucos, mas preciosos interessados, no que se estava produzindo no restante do país e algo de muito interessante que por ventura surgisse na cidade. O projeto passou ( e teve como ponto de partida) o bonito projeto de livraria da escritora Socorro Acioli (Livros e....), por outros lugares e encontrando pouso pelo Alpendre, até se tornar uma idéia contínua, uma memória e ser recuperado neste momento, agora.Uma Conversa: Poesia é retomado com esta missão de reforçar isso mesmo: conversa, pensamento, discussão. E trará não só poetas, mas gente que desenvolva uma poyesis nos mais diferentes sentidos e linguagens aqui na cidade e além dela, que assim seja. Nomes que são escolhas, diga-se de passagem, e de imediato, muitas particulares, mas que representam alguma possibilidade de idéias curiosas e potentes a partir deste lugar.Para começo de conversa, o pensamento do poeta. Para começo desta conversa, a palavra de Cândido Rolim. Cearense de Lavras, assumiu a condição nômade e, depois de anos fora, retornou a cidade, onde tenta estabelecer sutilmente algum diálogo, vínculo antes mesmo que a própria cidade o expulse novamente. È autor de ´Exemplos Alados´(Letra e Música, 1998), ´Pedra Habitada´(AGE, 2002), ´Fragma´(Funcet, 2007) e o mais recente ´Camisa Qual´(Éblis, 2008). Para mais: http://signagem.blogspot.com/.

CAL — Por que escrever poesia, essa insistência ?

CR — Embora não goste muito de fazer analogias entre a poesia e certas tarefas que, pelo hábito ou pelo pragmatismo, foram guindadas à categoria de necessidade, uma boa justificativa para se continuar a escrever poesia é encará-la como um puro fazer impuro, sem expectativas de fundo e fundos. Há aqueles que vislumbram uma essencialidade vital na tarefa de escrever e quanto mais em escrever poesia. Minhas lentes fatigadas não chegam a tanto. A essa altura do campeonato, a justificativa que encontro ou que pretendo injetar, talvez para disfarçar melhor minha ironia, está em escrever para confiar a mim mesmo a tarefa de tentar realizar um objeto verbal provisoriamente curioso.

CAL — Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje?

CR — A vida em si, deixou de ser épica. A história se acomoda a compartimentos e leituras cada vez mais exíguos, privatísticos. As tomadas do plano já não são tão abertas. Os gestos políticos, antevendo seu malogro em tentar convencer os cidadãos de sua impostura e impotência em dissolver os atritos da relação público x privado, são impessoalizados, submetidos aos ambientes rarefeitos. Quer dizer: nem na política se dá mais a intenção arrebatadora, convocante, redentora. Como lembrava Haroldo de Campos, não vivemos mais em um mundo de guerreiros e celebrantes. Embora possa ainda ser lido como sintoma e índice de sua época, porque sofre os insumos lingüísticos e vivenciais do seu entorno, o comportamento da poesia (melhor, da expressão poética), no embate com o mundo, talvez se ache parcialmente resolvido em sua recusa em se alistar na linha de frente dos impasses violentos da contemporaneidade. Mas sua elaboração, inaudível a princípio, quando submetida a uma tomada de ´plano fechado´ tem sua razão de ser, nisso que você fala de ´insistência´. É que, após o advento da crítica, a poesia gasta muita energia consigo própria, a ponto de não ser de todo errado afirmar que sua primeira resistência é contra seus próprios desvios, sua resolução dentro da própria linguagem. Por outro lado, vale lembrar que esses impasses não são próprios da contemporaneidade. Em tempos não tão distantes, poetas também praticavam sua escrita nas frestas de um mundo em crise. E se é verdade o que dizem - que não há condições ideais para escrever, fazer poesia continua subsumindo-se à condição de uma práticas ética e esteticamente relevante, quase alheia a cotação que costumam lhe conceder.

CAL — Poesia e tecnologia, poesia e novos meios, fala-se muito disso. Trata-se realmente de um novo problema, você tem observado um discurso novo a partir disso, ou é pura falácia?

CR — Diante de tanta pretensão ao todo, à catalogação geral, à funcionalidade, às vezes convém colocar as coisas em seus lugares. Se considerarmos a poesia como um produto da linguagem ou da imaginação (que tem sua fonte naquela), poesia como um atrito des/informante entre sentido e imagem, é óbvio que as ferramentas que irão veicular as mensagens daí decorrentes (livro, blog, e-mails), talvez só mui timidamente, irão influir (se de fato tiverem esse poder) nelas a ponto de estabelecer uma nova linguagem. Desconfio até que, de repente, será a expressão poética que irá se servir dos vícios desses novos meios! Noto que, a par de um incremento tecnológico na veiculação das mensagens, principalmente no que diz respeito à rapidez da informação, o ´caráter´ desses textos sofrem os mesmos refinamentos, vicissitudes, apuro, equívoco, indigências da mente que os escreve. Quer dizer, tal como se dá com o livro, o meio socorre pifiamente a mensagem.

CAL — Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipos de reflexões podemos apontar a partir desse dado.

CR — Vindo do interior, residi em Fortaleza por 6 anos até o ano de 1984. Saí e re-resido há 4 anos aqui. O desconhecimento com a cidade e a timidez com que me acerco a suas instituições (literárias ou não) me outorgaram uma estranha sensação de estrangeiro, sem os privilégios turísticos deste. Ou, pior, com aquela idéia meio acabrunhada de que Fortaleza tem seus donos. Ignorando um pouco o deslumbramento que noto em alguns poetas, aqui como alhures, de serem agraciados como ´cantores da cidade´ e de se sentirem confortáveis com a aceitação ´até certo ponto´ de sua ´expertise´ a serviço da comarca, cuido de traçar condições materiais mínimas para viver, ler, escrever e realizar um diálogo com poetas contemporâneos ´desde Fortaleza´, com cuja linguagem me identifico. Para esse fim, a geografia conta pouco.

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