As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

anacronia do drible


o jogo, as apostas, dão-se a meio caminho do que pode acontecer. o jogo, no fundo, nega a fruição do desfecho; sonega um derradeiro gesto. o melhor e mais eficaz contendor talvez seja aquele que ignora o desfecho, aquele que concentra toda sua energia numa tarefa situada entre a aposta e o resultado, que se realiza – se o acaso permitir, no entretempo, no interstício.

espera-se um resultado, mas não diviniza o triunfo em si (do contrário, permitir-se-ia desistir). “um bom drible vale mais que o gol”, diz o boleiro. o drible difere o êxito, podendo, no entanto, resultar em torná-lo mais notável, pela simples proximidade de um arranjo anárquico, súbito. exemplo: Garrincha, seu capricho gratuito, desmesurado, contraproducente às vezes. em visada a seu itinerário obsessivo em mínima faixa do campo, parece que segue o “caminho que não leva a lugar nenhum” (o Holzwege, de Heidegger), ou os seus “caminhos florestais”, lembrados por Hannah Arendt.

a agudeza irresponsável do drible desborda a tática, eviscera a parcimônia do projeto-disputa, quase como um elemento de fanfarronice. mas observando as performances de atletas ao longo da história – Mário Sérgio, Lionel Messi, Pelé, Zinedine Zidane - perguntas do tipo “Garricha jogaria hoje? Garrincha faria o que fez com o tipo de marcação atual?” pedem uma resposta reticente, mas sem grande margem para equívoco: provavelmente sim.

no entanto, o drible como um corte paratático, de meta só aparentemente identificável, que tem o gol como eventualidade, por não se sujeitar a um aperfeiçoamento programado e baseado em scouts - essa performance parece reeditável, em qualquer tempo.

e isso se deve, ao que tudo indica, porque o drible parece nascer de uma dobra anárquica do esforço, uma enteléquia infiltrada na evolução dos movimentos do atleta, quase esnobando da predestinação apolínea dos músculos. daí sua projeção instantânea surpreender o cálculo producente do defensor: é possível perceber que o habilidoso atacante deixou atrás de si destroços de um metódico e disciplinado (agora angustiado) projeto de contenção. afinal, parece que nada conseguiu abortar a fuga subversiva (álacre manobra entre 2 ou mais pontos), contrária a seu domínio.

Cândido Rolim

Em vídeo no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=yvT6Br8A7Uo

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