As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

ler jackson

enquanto o debate gira em torno do que já foi ou não foi dito, observo que raramente um músico se queixa da limitação de suas ferramentas, de seus acordes, e dentro do singelo espectro de 7 notas. talvez seja a música o terreno em que melhor se resolve (sem necessariamente uma conciliação) a relação quase sempre polêmica entre tradição e ruptura: a música parece permitir-se, sem qualquer enojo, um flerte enviesado com o passado de suas experiências. melhor dizendo: a economia de seus elementos parece retroalimentar-se dos despojos de sua história com menos solenidade e reverência. quem sabe por conta da pulsão de suas performances, em constante “indisciplina” inventiva, transitória. daí seu constante deslizamento, por força de um preconceito, para um nicho de fenômenos “meramente culturais” ou “matéria de entretenimento”.
gosto de ouvir essa leitura de Tom Gil a partir de um clássico de Jackson do Pandeiro. enquanto a percussão dá um estofo sutil para a composição, o “flanging” das cordas, através de distorções malemolentes, às vezes desleixadas, invade o plano bucólico com um eco ao mesmo tempo psicodélico e lacustre. vejo, na ponta desses dois gracejos à beira-rio, um diálogo velado com Manuel Bandeira quando invoca os sapos anti-parnasianos, associação quase inevitável, considerando os volteios onomatopaicos do caboclo Jackson em seus 10 pés. a ironia meio pop de Tom Gil, afetada já pelos insumos da contemporaneidade, atualiza ao mesmo tempo a moeda-discurso e o entrevero lacustre desses ecos ritmados, que parecem se repetir, sem freios e sem falsos pejos.

Cândido Rolim

A conferir:
http://www.youtube.com/watch?v=PxGZVLaneqY

http://www.youtube.com/watch?v=MpbMiyP_Zfc&NR=1

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