As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

entre textos

"fotograma" de um fragmento de Memórias póstumas de Brás Cubas


Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Ele gostava de Maria

Maria aprontava. Bebia, dava escândalo, esbravejava, seguia outro rumo e não ligava para avisar onde estava.

Maria esquecia de buscar o filho na escola, não chegava em casa para o jantar, não estava na casa da mãe, não estava na casa de amigos, e não ligava pra avisar onde estava.

Maria tentava se matar, uma, duas, muitas vezes. E não ligava pra avisar onde estava.

Cada vez que ela não ligava, ele entrava em pânico. Todos procuravam, e Maria voltava.

Ele gostava de Maria porque ela voltava e porque não pedia desculpa.


Na verdade, essa prática comparativa entre as duas lâminas, esse pesar de muitas medidas, visa a situar a linguagem de Bracher (Meu amor, Ed. 34) colocando-a em relação, isto é, relativizando-a em sentido forte. Assim, a elevada voltagem de ineditismo e de radicalismo presentes no texto de Manuel Bandeira (considerando que sua fatura é de meados da década de 1920, período em que o ideário estético modernista enfrentava resistência de lado a lado), pode ser invocada como uma forte matriz compositiva infiltrada no conto-poema da paulistana. Mas a condição de estilema, de paradigma, de insumo, que o poema de Bandeira cumpre nesse possível contraponto com a peça de Bracher, acaba por seqüestrar do jogo desta a novidade e a surpresa necessárias ao sucesso de forma-e-fundo do texto. Em outras palavras, “Ele gostava de Maria”, percorre uma estrada já pavimentada. Os acidentes de percurso foram devidamente mapeados e cadastrados. O serviço facilitado de que se beneficia, pode se voltar contra a sua narrativa no sentido em que nos faz reconhecer nesta um déficit de informação nova. Mas, a prosadora nos dá uma piscadela de olhos, e, cúmplices — num crédito remissivo ao nosso repertório —, lemos com um misto de simpatia e tolerância sua anedota rodriguiana que se sustenta numa dialética de plano e contra-plano com a “notícia tirada do jornal” do poeta.

por ronald augusto

3 comentários:

  1. O escritor, em certa medida, conta com a boa vontade do leitor como uma espécie de olvido programado, intencional, um às vezes irônico "fazer de conta que não conhece a cena" semiótica. Resta saber se essa benevolência salva a performance textual "revisitante" do malogro, quando comparada a si, levemente abstraída da tradição "revisitada".
    abç

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  2. Oi gostei muito do blog, conheça o meu blog também de textos. obrigado.

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  3. Valeu a visita e a boa dica, Iara.
    abç
    Cândido.

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