As quizilas, as réplicas e tréplicas inerentes ao pathos convivial — contraparte necessária ao pathos da distância constitutivo da linguagem da poesia — nos condenam a uma atitude de análise em que o importante é nos sentirmos implicados quer nos logros, quer nas pertinências que denunciamos.

sábado, 22 de maio de 2010

crônica de um divórcio estético


“Venha surpreender-nos no ano próximo, com um novo drama, e o público fluminense lhe dará as palmas merecidas, como as dá sempre ao talento laborioso”.

Extraio, dessa recomendação de Machado de Assis um dado no mínimo curioso: a segurança com que o cronista atribui ao juízo coletivo a responsabilidade pelo julgamento de uma obra, mesmo se cogitando de um remoto jogo de ironia, bem comum ao narrador do Cosme Velho.

Transpondo a problemática para um cenário contemporâneo ou estendendo-a a esse “futuro utópico” em que “as tradições culturais terão cessado de influenciar as decisões políticas” (palavras de Richard Rorty) é válido indagar: quando se deu o recuo dessa margem confiável do público, visto aqui como testemunha de um malogro estético, como legitimado e competente observador dos produtos estéticos da época e cuja autoritas, pelo visto, coincidira em grande parte com a avaliação do crítico?

Ou melhor, a partir de quando essa avaliação, manifestada através da vaia, da indiferença ou do aplauso, passou a ser posta em dúvida e em nome de qual pressuposto estético indiscutível? Que fenômenos levaram a esse corte histórico, aparentemente irreversível, entre a fruição promíscua e sem critérios do público e a opinião de autores, críticos e scholars?

Cândido Rolim

3 comentários:

  1. Difícil pergunta, amigo Cândido. Seria o mundo machadiano mais simples? Talvez. Lá o "público", seja como for, não era tão amplo... havia uma porção de intelectuais relativamente pequena, escrevendo em revistas em número também limitado. Hoje, a sociedade de massas, diversas, polimorfa (e muito amorfa), com referenciais dispersos, não é um público tão "seguro" como os do tempo de Machado. O divórcio também é signo de riqueza, não acha? Para que casamentos tão arrumadinhos entre estética e fruição? A insegurança é marca do tempo que se vive hoje. Abraços.
    Maciel Carneiro

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  2. sim sim. vc tocou no ponto intrigante: vc desloca a problemática para um fenômeno quase fora da recepção. bom isso.
    não sei se passei essa atmosfera, mas não aludo a essa época de núpcias entre a estética e a fruição, como ideal, como algo sem ruído. mas já que uma dos remorsos da arte contemporânea é a ausência de um retorno minimamente rentável entre o que se faz e o que se percebe, simulo um tateio no trancurso histórico, à procura, também desvairada, e mesmo sem aquela nostalgia hegeliana, para colocar em cheque tanto a precariedade desse recepção "confiável" de um "público alvo", quanto a satisfação meio esnobe de uma arte sem interlocução.
    abração e esperoque não paremos por aqui.
    Cândido

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  3. Entendi, talvez apressadamente, que teve essa nostalgia... Mas a riqueza do inesperado não deixa de prover uma liberdade criativa maior... os deslocamentos podem ocorrer com mais frequencia. A própria arte - quero acrescentar isso - é responsável também por esse divórcio. A não fixidez de formas, o experimentalismo estético, aquilo que é sua riqueza, também cria uma distância em que o público precisa correr para fruir... Eu estou no seu terreno, cabra. Não sou historiador da arte, e sequer estudo a contemporaneidade. Qualquer descompasso entre minha fala e a sua, é vício de ofício! Abração.
    Maciel Carneiro

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